Gerontocracia
A falta de planos pro futuro por quem não faz parte dele
Quando as democracias modernas foram implementadas, era inimaginável um mundo sem jovens. A ideia de progresso dependia de mãos para construí-lo, e países novos como os EUA, Argentina e Brasil, ambicionavam fazer construções maiores e melhores que seus povos originários. Para isso, a juventude era guiada pelos mais velhos, que detinham capital, para novas cidades e indústrias. A ânsia de viver o novo era contraposta pela vontade de desenvolver os planos do passado, porque a juventude, maior em números, era balanceada pelo poder político dos mais velhos. Esse sistema funcionou até o fim da era do estado de bem-estar social: conforme tecnologias para reprimir a vontade da juventude avançaram, após sucessivas gerações capadas da possibilidade de participar do mundo novo, a própria pirâmide etária se inverteu: os jovens pararam de nascer em um mundo que não os integra.
Não é segredo pra nenhum brasileiro que as cidades estão se tornando cada vez mais hostis pra seus habitantes. Mas pra um tipo de habitante específico, elas estão se tornando insuportáveis. Com cada vez mais carros, muros, câmeras, prédios com apartamentos minúsculos, farmácias, e cada vez menos escolas, espaços públicos, locais de socialização e exercícios ao ar livre, os jovens e as crianças estão sendo excluídos de espaços públicos. Essa hostilidade ao jovem é fruto de uma contínua exclusão da população jovem do sistema econômico, que era balanceada pela participação demográfica dos jovens nas votações do sistema político. Mas desde a ditadura, que o agir político foi censurado e mal-visto, afinal poderia resultar em sequestros e torturas, a captura completa do poder político por pessoas velhas produziu a gerontocracia que vivemos: um sistema que, abandonada qualquer pretensão de livre-mercado, busca privilegiar os interesses dos detentores de capital, e pune tudo associado ao jovem e à sua forma de agir.
A gerontocracia é praticamente uma armadilha social, porque é um sistema de poder que se autoperpetua: ao excluir os jovens, que decidem não reproduzir num mundo ruim, sobram menos deles pra protestar pelas escolhas dessa classe dominante. Um mundo controlado e moldado por gente antiga não dá espaço para erros ou riscos: alugar um apartamento, abrir um negócio ou ter filhos podem ser escolhas economicamente irrecuperáveis. Num mundo com pouca possibilidade de acumular capital, desenvolver um terreno baldio, ou crescer dentro ou fora de uma hierarquia empresarial de forma honesta, estrangeiros apelidaram de “corrida de ratos” essa tentativa risível de disputar, com diplomas de pós-graduação, um lugar num mundo que não te quer, com salários que não pagam suas contas, quem dirá abrir possibilidade pra novos empreendimentos. Nos novos mercados do século 21, a maioria na internet ou dependentes da internet, a monopolização dos serviços é a regra, como fazem os serviços de transporte, entrega de comida, mas também os serviços de busca e redes sociais, que transformaram a internet em 4 sites. Jovens que tentem inovar, como jovens dos anos 80 que criaram as gigantes de tecnologia inovaram, encontrarão o contrário de um livre-mercado. Postar uma manobra de skate ou uma foto numa escalada pode aumentar o valor do seu seguro de vida, e opiniões políticas podem ser usadas como argumento pra não-liberação do seu visto. A internet apodrece rápido, só aumenta sua manipulação por grandes conglomerados, e a promessa de novos meios de organização e contato social se transformaram num avanço do estado de vigilância e de formas de engenharia social.
Já houve um tempo em que mobilidade social, baseada no mérito, era menos limitada: foi depois da interferência de economistas associados com a onda dos neoconservadores do período Reagan que a concentração de capital se acelerou. Nasceu um argumento econômico à favor da família que, não por acaso, também privilegia o homem mais velho da família. Por exemplo, para autores como Friedman, Buchanan e Becker, economistas com atuação política no lado conservador, desenharam uma defesa da família como um ativo econômico importante pra sociedade, além do moralmente correto: um dos motivos pra se desmontar, ou não avançar, o sistema de welfare seria que ele desincentivava a formação de famílias: que pessoas independentes, capazes de gerar capital sozinho e ascender socialmente, não teriam interesse em gerar famílias se podem cuidar de seus filhos sozinhos. Essa defesa de Gary Becker em seu “Tratado sobre a Família”, junto com a defesa da herança sem impostos por Friedman em “Liberdade pra Escolher” premia a permanência das relações econômicas e por isso é importante pra quem já é elite. Se você considera que o poder econômico geralmente é desigual, e fica na mão de homens, é um argumento contra mães solteiras - que apareceram no debate público conforme as mulheres ganhavam espaço no mercado de trabalho, mas que sempre foram julgadas. Como o resto das práticas e discursos neoliberais, esses argumentos foram exportados pelo mundo ocidental e são usados também no Brasil. Mas super-premiar quem já tem capital também atrapalha homens jovens, que querem apostar no próprio mérito pra crescer, mas não podem. É um problema político grave que as pessoas sejam influenciadas pelo ecossistema social a defender o grupo que é contra sua ascensão, que falam a favor da família, mas dificultam a formação de famílias na medida que dificultam a formação de novo patrimônio. São elites que não precisam pensar no mundo trinta anos depois porque não estarão aqui, e manipulam o sistema econômico para que o capital acumulado recompense muito mais que o capital trabalhado. Sendo direto: como os jovens, sem dinheiro nem perspectiva de carreira, vão querer constituir família e sair da casa dos pais?
Uma forma especialmente deprimente dessa dominação político-econômica é o engessamento cultural. Se o Lula dos nossos tempos é o próprio Lula, o Titãs dos nossos tempos é o próprio Titãs, demonstrando a impossibilidade de novas manifestações culturais conquistarem espaços. Novos músicos têm que disputar no mercado do streaming, em que centenas de milhares de reproduções não pagam nem o cafezinho, e nem podem sonhar com ter suas músicas em discos ou karaokês. Fenômenos parecidos acontecem no mercado editorial, com apostas conservadoras em nomes antigos e propriedades intelectuais antigas: muito do que chamamos de nostalgia é um monopólio geracional nas empresas do setor cultural. Jovens são, portanto, excluídos do comando político do mundo, mal recompensados como força de trabalho no campo econômico, e tem seus espaços de reprodução cultural reduzidos.
Países subdesenvolvidos ou simplesmente desavantajados no mercado mundial, como é o caso do Brasil, com taxas de câmbio desfavoráveis pro consumidor interno, tem uma situação ainda pior porque o sonho dos seus jovens é sair do país. Se não é possível ter propriedade, participar da economia brasileira e crescer nas empresas brasileiras, e as habilidades requeridas em países de primeiro mundo são as mesmas aprendidas aqui, não é interessante ficar. Quem vai liderar um país em que as pessoas mais capacitadas fogem, não por causa dos problemas, mas por falta de oportunidade? É a classe mais rasteira: gente que depende da política, seja porque sua carreira inteira foi na política, e isso independe de partido, ou gente autointeressada na política, a favor de interesses próprios, que são corporativistas, setoriais e muitas vezes ilegais, seja pra legalizar terra capturada em grilagem ou impedir que o estado avance sobre facções criminosas.
Postman falava que, se a infância surgiu no momento em que restringimos a informação a livros, começamos a erodir a infância ao reduzir essa separação com a televisão. Com os celulares, tablets, as possibilidades de exposição das crianças a temas adultos estão em todo lugar. Os pais que tentam salvar as crianças dessa exposição ao mundo adulto as isolam de outras crianças: de uma forma ou de outra, a infância como foi conhecida não tem mais como existir. É muito estranho como os defensores de crianças em nada se incomodam da expansão dessas tecnologias que podam a experiência infantil. Inclusive, porque pra essa classe dominante e envelhecida, não interessa os espaços infantis: não só parques e lugares comuns, mas o sistema educacional como um todo. Dele, só interessa sua função social de liberar os pais pro trabalho, e o ensino excessivamente técnico pra gerar trabalhadores de baixo valor agregado. Em suma, uma sociedade gerontocrática é também uma sociedade que odeia crianças, direta e indiretamente.
Países europeus tentam resolver o desequilíbrio econômico, pagando pra seus cidadãos terem filhos, dando grandes auxílios e licenças-maternidade. São iniciativas econômicas que evitam soluções que passem pelo lado político. Governos constantemente aumentam dívidas para serem pagas pelas gerações futuras: modelos previdenciários no mundo todo estão quebrando por terem sido construídos esperando mais jovens que idosos. Política é, acima de tudo, autointeresse: governos sem participação de jovens não planejam pra eles. Seria justo que os cidadãos dessas gerações futuras tivessem um peso maior nas eleições: decisões são feitas de forma que os jovens paguem, mas não sejam consultados. Adultos com filhos pequenos poderiam ter um voto com peso maior, ou votar pela criança. Problemas como aquecimento global seriam levados mais a sério pelas gerações que de fato viverão o seu impacto, invés das gerações que não serão afetadas por ele. E se essa mudança não pode começar diretamente no sistema político, é de estranhar que nenhum partido progressista adote qualquer um desses procedimentos em processos internos. Dá pra se pensar num Partido Jovem de faixa etária radicalmente oposta ao Partido Novo. O que não dá pra fazer é deixar tudo como está, porque dessa forma, não há futuro.

