Think tanks
Como grupos com poder econômico forçaram suas opiniões no debate público
A Guerra Civil americana foi uma disputa em torno de um dos pilares principais dos Estados Unidos. Não foi pelo direito dos estados. Não foi pela constituição americana. Foi pela escravidão. Na expansão do país, pra cada estado livre de escravos, se criava um com escravos. Por motivos econômicos e humanitários, o norte resolveu dar um basta. Mesmo que isso mudasse o espírito do país. Logo após o fim da guerra, as esposas e filhas dos sulistas se organizaram pra preservar os cemitérios dos confederados e homenagear seus familiares mortos. Ouvindo essas histórias, suas descendentes criaram organizações específicas pra defender esse passado glorioso, em que um estilo de vida de elite e nobreza era garantido (mas só pra família delas) por esse tipo de hierarquia social. Não é honroso pensar no seu pai ou avô como uma pessoa que se beneficiava da escravidão, então financiaram livros pra dizer que, na verdade, a escravidão não era tão ruim comparado à sociedade moderna, ou, que a guerra na verdade era por autonomia, são tentativas de esconder um passado muito feio de toda uma elite regional. A organização principal se chamava ‘Filhas unidas da confederação’, e foram responsáveis por espalhar a ideologia da Causa Perdida, que não só pressionou para que os nomes dos generais confederados fossem dados a escolas, praças e repartições públicas, como censuravam ou promoviam livros em escolas e ergueram estátuas. Efetivamente, fortaleceram a sua versão do passado. O leitor que acompanhou o noticiário entre 2015 e 2020 lembrará da derrubada dessas estátuas e bandeiras confederadas pelo país, enquanto manifestantes pediam a retirada desses símbolos. Seus opositores defendiam que eram objetos históricos, mas a verdade é que a maioria foi feita 50 anos depois da guerra, por esforços dessas organizações. Anos de esforço para influenciar o passado retornaram na forma daquelas estátuas. Nos anos 60 e 70, dos panteras negras e Martin Luther King, quem se sentiu alienado ou prejudicado pelo ganho de direitos de outras pessoas, se uniu a esses grupos, centralmente racistas, para reagirem. Quando o momento veio, as organizações estavam lá.
Pode-se dizer que essas organizações eram think-tanks: institutos, geralmente financiados por grupos de interesse, para promover visões específicas em relação à sociedade em geral ou a eventos marcantes da história. É uma forma de agir para influenciar a opinião pública e cativar pessoas abertas ao tema com uma comunidade. No fim da ditadura, um movimento global no ocidente buscava desregulamentar economias e patrocinou, por meio desses think-tanks, suas ideias para quem estivesse disposto a ouvir. O Instituto Liberal, formado em 1983 no Rio de Janeiro, foi o primeiro think tank do período neoliberal brasileiro, financiado por empresários e mantendo conexões diretas com a rede Atlas Network dos Estados Unidos. Seu objetivo era educar a elite brasileira - empresários, jornalistas, professores e estudantes - nos princípios do livre mercado. O Olavo de Carvalho, que se mudou para os Estados Unidos em 2005, criou seu próprio sistema de influência através de seus cursos online de filosofia, vídeos e podcast, formando uma comunidade entre seus seguidores. Os militares não tinham interesse na guerra cultural, pois se sustentavam nos bons números da gestão econômica da ditadura, que assim que caíram, caiu o regime, mas continuaram ressoando, por dentro, as mesmas ideias de soberania e anti-indigenismo que fazem parte da sua ideologia. Depois de grandes vergonhas passadas no fim da ditadura, com crimes desvendados, perseguições expostas e economia desgovernada, na política, a direita apoiava candidatos definitivamente afastados de seus ideais principais, e os movimentos de direita se reordenavam no debate público.
Esses institutos liberais participavam de uma guerra cultural interna no campo da direita, especificamente no campo econômico. Se viam como oposição à ditadura intervencionista, que de fato se manteve na ideologia consensual de sua época do desenvolvimentismo, e criaram um espaço, na direita, pra se dizer antissistema nacionalmente, mesmo que fosse, ou talvez justamente por ser, a ideologia mais interessante pra submeter a lógica econômica ao capital estrangeiro. É o cosmopolita, o modernizante, o novo, o descolado, contra o provinciano, o ufanista, o velho, o careta. Em uma tese de mestrado de 2005 da Universidade Federal Fluminense, em Relações Internacionais, o autor Carlos Lacerda, que certamente sente a ironia no seu nome, com autorização dos próprios integrantes do Instituto Liberal do Rio, traçou algumas influências e financiamentos dos institutos liberais dos anos 80 e 90. A lista é grande, com nomes de peso: no Instituto Liberal de São Paulo, bancos americanos como o Citibank, Bank of Boston, empresas multinacionais como Nestlé e Quaker, mas também bancos nacionais como Bradesco, Itaú e Unibanco, além da Varig e Votorantim, eram mantenedoras do instituto. No Rio de Janeiro, a petroleira Shell, o grupo Ipiranga, a seguradora Sul América e a montadora Mesbla eram as financiadoras.
A lógica, por parte desses grupos privados, era clara e não precisa ser um conspirador ou atribuir maldade pra entender: essas empresas, que querem dinheiro e menos regulação, porque esse é o objetivo de qualquer empresa, mantinham institutos, que por sua vez defendiam pautas que desembocavam nos mesmos objetivos. Institutos que por sua vez contratavam pessoas, faziam eventos, davam base pra formar novos influenciadores de opinião, que deixavam vivo um espaço de pensamento que veio a ser usado anos depois, quando as contradições dos 10 anos de continuidade no poder do PT vieram à tona. Quando a disputa é monetária, quem tem menos moral tem vantagem. Em 1993, em meio a um governo tampão e a implementação do Plano Real, a reunião da Sociedade Mont Pelerin trouxe James Buchanan, Murray Rothbard, Walter Williams, para palestrar no Rio, para um público de 80 professores universitários entre trezentos participantes. Não me surpreenderia que entre esses, estivessem membros da FGV-RJ e PUC-RIO, que participaram do governo Fernando Henrique, e de fato gerenciaram um plano de desestatização em troca de regulamentação em diversos setores.
Em 2013, manifestações aconteceram por causa de um aumento no preço das passagens, seguidas de grandes manifestações pela brutalidade com que as primeiras foram reprimidas, e o país inteiro foi pra rua. Nesse caldo, cada tribo urbana foi com cartazes e placas que representavam seu grupo. Alguns foram com mensagens contra a polícia militar, outros defendendo sua própria corporação, como bombeiros e outros funcionários públicos, pedindo melhores condições. Pipocaram as primeiras placas de “Olavo tem razão” e foi fundado o “MBL”, inicialmente uma página pra organizar manifestações de liberais não-conservadores, pelos líderes do Estudantes pela Liberdade, financiados pela Atlas Network para fazer ativismo. Quando o momento veio, os institutos já estavam lá. Essas pessoas, revoltadas com a falta de caminho de um governo sem marca, foram recheadas de livros de graça, palestras com famosos, e uma comunidade pra fazer parte, em que pudessem ecoar a sua versão da história. Suas figuras mais ilustres lançaram livros, abriram espaços em programas de TV ou se elegeram pra cargos públicos. O que os institutos fazem não é um plano maligno, é criar um espaço em que pessoas com uma opinião mais ou menos parecida podem se juntar. E nada mais fácil que se unir contra um governo ruim.
Como mostrado por Camila Vidal e Jahde Lopez no trabalho “Repensando a dependência latino-americana”, foi em 2016 que a América do Sul e Central ultrapassou a Europa em doações da Atlas Network, sendo a região que mais recebeu recursos até o fim das informações em 2018. A rede de think tanks tem um apoio silencioso do Departamento de Estado americano por meio do USAID e de grandes petroleiras, diretamente como a Exxon ou indiretamente por instituições filantrópicas. Diversos nomes, entre eles Paulo Guedes e Ricardo Vélez, ministros de Bolsonaro, atuaram de alguma forma no ecossistema dos think tanks liberais, mostrando a eficiência de disputar espaços não-tradicionais pra transformar a ideologia de uma minoria em ideias pra maioria. Em Bolsonaro, se encontrou um candidato aberto a buscar a conciliação entre as ideias reacionárias da ala militar e religiosa, com os novos objetivos no campo econômico da ala liberal.
Dizem que o passado é escrito pelos vencedores. Mas o passado está eternamente em disputa pelas visões de futuro que as pessoas tem hoje. Para isso, é necessário o debate e espaços de formação que aceitem quebras, principalmente em pontos ideológicos que não são consenso entre os jovens. Não é da natureza do espectro da esquerda a lógica dos think-tanks, pela falta do fluxo de dinheiro de grandes empresas, e a maior parte dos comandantes de esquerda são profissionais liberais, não gerenciais, sem o tempo ou dinheiro de seus pares do outro lado do espectro político. Mas ainda assim, porque não é incentivado pelos movimentos de esquerda que existem hoje, uma movimentação parecida? Há medo, porque existem cicatrizes de 2013, mas as manifestações daquele ano foram causadas pela inabilidade da cúpula da esquerda em ouvir a sua base. A suspensão do debate pela negação dos erros da prática política é o principal motivo pelo qual a disputa ideológica tem sido vencida por forças de direita.
Quando se olha pro campo progressista, o que essas pessoas querem pro Brasil? Querem ser ambientalistas, frear a exploração de terras intocadas e virarmos um centro de tecnologia renovável? Então, porque as propostas de explorar petróleo, expandir hidroelétricas na Amazônia e desmarcar terras em reservas vêm e são aprovadas em um governo progressista? Querem ser desenvolvimentistas, melhorar o nível dos nossos empregos por meio de valor agregado? Então porque não param de pipocar, em governos progressistas, isenções pra montadoras e caminhões, que foram caminhos do século passado pro desenvolvimento? Um voto na esquerda já foi proativo. Votar na esquerda já foi a esperança de um país desenvolvido na economia, no social e, talvez, no ambiental. Com internet, sem carteira de trabalho, envelhecido, inseguro. A esquerda, em parte, não entende o que ocorreu após 2010, em parte é orgulhosa demais pra contornar seus erros, e tem medo de discutir os motivos que a levaram a sucessivas derrotas e, por isso, se entocou na figura de antagonista. Se define por oposição: não somos a direita. Numa situação dessas, quem vai discutir o que o progressismo deveria ser?



Nada melhor que uma dose alta de escrita inteligente e crítica logo de manhã
É deprimente que diferentes grupos da esquerda fiquem presos sob um guarda chuva (A Esquerda) comandado por um grupo que não tem interesse algum em debater as contradições internas sob justificativa de que isso fragilizaria o progressismo, prejudicando a população (já que pregam que A Esquerda é o que garante que O Povo seja bem cuidado).